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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Após fracasso eleitoral, PT encara desafio de forjar líderes na esquerda além de Lula

Lula, quatro dias após as eleições municipais.

Em um roteiro já rascunhado, as primeiras eleições municipais após o impeachment de Dilma Rousseff foram um desastre para o Partido dos Trabalhadores, que na última década havia se estabelecido como a principal legenda de esquerda da América Latina. O partido liderado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu mais da metade das prefeituras, conseguindo eleger apenas 256 nomes no primeiro turno e tendo a chance de garantir, no máximo, mais sete no segundo turno, que acontece no final deste mês. É menos da metade do total de prefeitos petistas que chegaram ao poder há quatro anos. Em 2012, dois anos depois da primeira vitória de Rousseff à presidência, a sigla havia conseguido eleger 644 prefeitos, o maior número até então. E, como a política não aceita vácuo de poder, o PSDB, que vinha em declínio nas municipais desde que Lula assumiu a presidência, voltou a aumentar sua participação: subiu de 701 eleitos, em 2012, para 793 agora, podendo chegar a 812, caso eleja todos os tucanos que foram para o segundo turno.

A derrota nas eleições já era antecipada pelo partido, que desde 2013 vive uma crise que só se acentua. Mas, mesmo diante das análises pessimistas, não se esperava que ocorresse nesta extensão. Pouco antes de votar, no domingo passado, Lula dizia aos repórteres que o PT iria surpreender nesta eleição. Mas, logo após os resultados, o presidente nacional da legenda, Rui Falcão, afirmou em uma coletiva de imprensa que "foi uma derrota forte, grande, e que merece um exame minucioso nos próximos meses". As perdas não foram apenas numéricas, mas também simbólicas. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad não conseguiu passar para o segundo turno e perdeu para o candidato tucano, João Doria, até na periferia, onde o PT antes dominava. No Nordeste, outro reduto petista, o partido elegeu 37% prefeitos a menos do que em 2012. Na Bahia, por exemplo, a sigla conseguiu o comando de 39 prefeituras, enquanto em 2012 obteve 53.

Para além dos argumentos que apontam os escândalos de corrupção como a principal causa da derrota, rechaçado por cientistas políticos ouvidos pelo EL PAÍS, a análise do que motivou a derrota passa pelo próprio impeachment de Rousseff. Com as movimentações partidárias no Congresso, muitas das alianças que o PT havia costurado desde antes da chegada de Lula ao poder federal acabaram desfeitas. Uma resolução do PT nacional de maio deste ano afirmava que o partido não poderia se aliar a defensores do impeachment e que, prioritariamente, os candidatos municipais deveriam formar chapas com PCdoB e PDT. "A questão dos apoios é fundamental. Há uma correlação forte entre o sucesso eleitoral e o número das coligações de uma chapa", explica o cientista político Fernando Guarnieri, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ele ressalta que em 2002 Lula só conseguiu vencer no Nordeste depois que obteve, ainda que informalmente, o apoio de uma ala do PMDB importante nesses Estados, como a de José Sarney, que estava descontente com a candidatura de José Serra pelo PSDB, partido, na época, aliado dos peemedebistas.

Guarnieri ressalta ainda que a derrota petista nas municipais deve ser vista não apenas pela ótica da perda de votos, mas também pela da diminuição da oferta de candidatos do partido. Diante do desgaste da imagem do PT, provocada pelos escândalos de corrupção e pelo processo de impeachment de Rousseff, muitos prefeitos que tentaram a reeleição já haviam deixado a sigla. Além disso, o partido lançou, neste ano, quase metade dos candidatos que havia lançado na eleição municipal de 2012. Há quatro anos, o PT era o segundo partido com o maior número de candidatos no país, atrás do PMDB; nesta última eleição, foi o sexto, apontou o jornal Valor Econômico.  "Uma menor oferta significa uma menor votação", ressalta ele.

Para além das questões políticas, o desempenho petista nestas eleições também deve ser visto pelo viés econômico, aponta o economista Ari Francisco de Araújo Junior, professor do IBMEC de Minas Gerais. Ele é autor de um artigo, em parceria com outros especialistas, em que analisava os motivos que levaram à reeleição de Lula, em 2006. Eles chegaram à conclusão de que, na época, a boa situação econômica do país teve mais influência nos votos pró-Lula do que os programas de transferência de renda implementados pelo Governo, como o Bolsa Família. "Quem define a eleição é o eleitor mediano, que tem uma renda mais baixa. Em geral, para eles, a ideologia importa menos [do que para os eleitores mais escolarizados], então a situação econômica do momento e as perspectivas de que no futuro possam garantir uma melhor condição pesam na hora do voto", explica ele. "Em resumo: as pessoas estão mais preocupadas em pagar suas contas e querem que isso seja sustentável no futuro", ressalta.

Ele acredita que o panorama federal contaminou as eleições municipais e o PT foi punido por conta de uma gestão econômica "muito ruim", que levou ao aumento da inflação e do desemprego. É o mesmo fator que poderia explicar a queda do desempenho do PSDB nas municipais entre 2000 e 2004. O ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso havia deixado o Governo, em 2002, com uma inflação acumulada de 12,53% e uma taxa de desemprego que atingia, em dezembro daquele ano, 10,5% – pouco menor que a atual (11,8%, no trimestre terminado em agosto). Em 2000, o PSDB havia garantido 989 prefeituras e, em 2004, foi para 870, segundo levantamento da Folha de S.Paulo.

GOVERNO DA BAHIA

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